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Minha esposa acaba de retornar de São Paulo trazendo duas grandes caixas que, para um bibliófilo inveterado, são o equivalente ao baú do tesouro: o primeiro lote de livros enviado pelo governo estadual para a nossa biblioteca aqui na ReArte. São cerca de cem exemplares que fiz questão de folhear um a um. Mas, como nem tudo são flores, ao mesmo tempo em que me maravilhava com o cheiro de papel novo, já batia aquele desespero técnico ao pensar na trabalheira que será catalogar cada um desses dados no rigoroso padrão bibliográfico… Ossos do ofício!
Entre romances e técnicos, um livro saltou aos olhos: uma obra sobre a imigração italiana. Para quem vive em nossa região, é impossível não se sentir parte daquelas páginas. E, claro, lá estavam elas: as fotos das antigas locomotivas da Mogiana, soltando fumaça e transportando sonhos (e café).
Para variar, minha mente não aguentou o presente e viajou. Pairou sobre uma pauta que eu ainda não havia detalhado aqui: a história de uma composição minha chamada “Se Demoro Aqui, Não Chego Lá”. Ela é, na verdade, uma ponte musical que construí entre o Vesúvio e o Jaçanã.
Tudo começou com a clássica “Funiculì, Funiculà”. Muita gente acha que ela é uma canção folclórica ancestral, mas a verdade é mais prosaica: foi uma música “propaganda” composta em 1880 para celebrar a inauguração do primeiro funicular (aquele bondinho puxado por cabos) no Monte Vesúvio. Foi um sucesso tão estrondoso que até Richard Strauss a “surrupiou” achando que era domínio público na época (e levou um processo por isso!).
Pois bem, inspirado pela interpretação icônica do Pavarotti, percebi que aqui no Brasil a gente não tem muito o hábito de andar de funicular, mas temos uma paixão visceral por trens. Então, decidi “abrasileirar” a jornada. Transformei a subida ao vulcão na urgência do trabalhador brasileiro. Mas para a receita ficar completa, eu precisava de um tempero paulistano.
Foi aí que prestei minha homenagem a Adoniran Barbosa. Se em Nápoles o coração canta para a “Nanniné”, em São Paulo ele bate forte pelo “Trem das Onze”. O curioso é que Adoniran, o mestre do sotaque ítalo-paulistano, nunca morou no Jaçanã; ele escolheu o bairro porque rimava perfeitamente com “amanhã”. Ele era um gênio da “licença poética” e da linguagem do povo.
Em “Se Demoro Aqui, Não Chego Lá”, eu fundo a alegria vibrante napolitana com a nostalgia do nosso samba. Se no original italiano o refrão convida a subir a montanha, na minha versão a luta é para achar um lugar para sentar e não perder o último trem, porque, como bem disse Adoniran, “minha mãe não dorme enquanto eu não chegar”.
É fascinante como a música e a literatura conseguem encurtar as distâncias. Um livro de imigração vindo de São Paulo me faz ouvir o apito da Mogiana e, em segundos, estou cantarolando uma melodia que nasceu na Itália há 145 anos, mas que agora fala com o nosso sotaque.
Nossa biblioteca na ReArte está ganhando corpo e alma. E para quem tiver “bons ouvidos”, convido a “clicar” em EP Serra Negra – Henrique Vieira Filho: ouça esta e outras músicas que criei para a nossa terra. Afinal, se a gente demora aqui no presente sem olhar para o passado, acaba não chegando lá no futuro que queremos construir.
Para mais curiosidades sobre estas músicas, acesse: Se Demoro Aqui, Não Chego Lá – Henrique Vieira Filho
Henrique Vieira Filho é artista visual, agente cultural (SNIIC: AG-207516), produtor cultural no Ponto de Cultura “Sociedade Das Artes” (SNIIC: SP-21915), diretor de arte, produtor audiovisual (ANCINE: 49361), escritor, jornalista (MTB 080467/SP), educador físico (CREF 040237-P/SP) e terapeuta holístico (CRT 21001).

Henrique Vieira Filho é artista plástico, agente cultural (SNIIC: AG-207516), produtor cultural no Ponto de Cultura “Sociedade Das Artes” (SNIIC: SP-21915), diretor de arte (MTE 0058368/SP), produtor audiovisual (ANCINE: 49361), escritor, jornalista (MTE 080467/SP), educador físico (CREF 040237-P/SP), psicanalista, sociólogo (MTE 0002467/SP), professor de artes visuais, pós-graduado em psicanálise e em perícia técnica sobre artes.
http://lattes.cnpq.br/2146716426132854
https://orcid.org/0000-0002-6719-2559
Contando com cerca de 60 exposições entre individuais e coletivas, em galerias, polos culturais e museus em diversos países, suas obras estão disponíveis tanto em galerias consagradas, como a Saatchi Art, quanto em sua galeria própria, a Sociedade Das Artes, até os mais singelos espaços alternativos.
Atualmente radicado no interior de SP, dedica-se, em especial, ao Slow Art Movement, que prega a apreciação afetiva, “sem pressa” das artes, para todas as camadas da sociedade e ao Projeto Re Arte, em que abre espaço a novos talentos artísticos e à integração das mais diversas formas de artes, por meio de mixagem e releituras.
Editor, autor, pesquisador e parecerista nos periódicos Artivismo (ISSN 2763-6062), Revista TH (ISSN 2763-5570) e Holística (ISSN 2763-7743), conta com centenas de artigos publicados e vinte livros, além de colaborações, entrevistas e consultorias para Jornal da Tarde, O Estado de São Paulo, Diário Popular, Jornal O Serrano, Revista Elle, Revista Claudia, Revista Máxima, Revista Veja, Revista Planeta, Revista Capricho, Revista Contigo, Revista Saúde, Revista Boa Forma, Rádio Globo, Rádio Gazeta, Rádio Eldorado, Rádio Nova, TV Globo (Jornal Nacional, Bom Dia Brasil, Fantástico, etc.), TV Gazeta (Telejornal, Mulheres, Manhã na Paulista), TV Record, SBT (Telejornal, Jô Soares Onze e Meia, etc.), TV Jovem Pan (Telejornal, Opinião Livre, etc.), TV Cultura, TV Bandeirantes, Rede Mulher, TV Rio.