Assim Nasceu O Turismo

Assim Nasceu O Turismo - llustração: Henrique Vieira Filho

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Nosso Circuito das Águas respira turismo, mas será que realmente sabemos quem assinou a certidão de nascimento desse hábito de “botar o pé na estrada”? 

Para explicar, vamos montar uma “Festa das Nações” histórica. Começamos pela Grã-Bretanha, onde o galês Robert Owen (1771-1858) lançou um lema que soava como alquimia social: “8-8-8”. Eram oito horas para trabalhar, oito para recreação e oito para dormir.

Em uma época em que crianças de cinco anos eram engolidas por minas e fábricas, Owen defendeu que a produtividade não deveria depender da exaustão. Ao lutar pelas oito horas, ele defendia o direito de sermos algo além de engrenagens: o direito de ser pai, mãe, cidadão e indivíduo.

Mas o que fazer com essa novidade chamada “dia de folga”? Na época — e, convenhamos, para muitos até hoje — o balcão do bar parecia o único destino possível. Foi então que Thomas Cook, um pregador batista inglês, teve uma epifania em 1841: ele “inventou” o turista! Cook percebeu que, se oferecesse transporte organizado e cultura, as pessoas trocariam a taberna pela beleza do mundo. O turismo nasceu, vejam só, como uma tentativa de salvar o homem do vício através do deslumbramento.

A França deu o seu toque de mestre em 1936, transformando o lazer em direito com a criação das férias remuneradas. Pela primeira vez, era possível descansar (e até fazer turismo!) sem o medo de não ter como pagar as contas do mês!

E o Brasil? Bem, por aqui, Santos Dumont deu o passo definitivo para se tornar o “pai” do nosso Dia do Turismo. Inconformado com o fato de que as Cataratas do Iguaçu eram propriedade particular, ele convenceu o governo a desapropriá-las para que o povo pudesse “turistar”. Se a paternidade é do aviador, a maternidade coube à presidente Dilma, que oficializou o 8 de maio como a data comemorativa.

Por falar em mães, Anna Jarvis, a fundadora do Dia das Mães, viveu uma ironia profunda. Ela nunca teve filhos e passou seus últimos dias tentando cancelar a data, amargurada ao vê-la “sequestrada” pelo comércio. Para ela, o mercado transformou o amor em mercadoria — um paralelo perfeito com o que acontece hoje com o nosso tempo livre.

É curioso notar que a evolução do “descanso” (a pausa para não morrer de exaustão) para o “lazer” (o tempo para viver) ainda é uma batalha em aberto. Atualmente, discutimos a jornada 6×1 versus 5×2! É o fantasma de Robert Owen sussurrando que um único dia de folga mal basta para lavar a alma, quanto mais para “turistar”. 

Em paralelo, enfrentamos um novo perigo: o sequestro do lazer pelo algoritmo. O descanso, muitas vezes, virou o trabalho de ser “influencer de si mesmo”, onde o passeio só ganha vida se for validado por um “like”.

Mas, há um lado luminoso nessa vitrine digital. As redes sociais são também o nosso álbum de memórias infinito. Fotografar e postar é uma forma de eternizar o efêmero. É o que nos permite emocionar novamente ao rever o sorriso de uma pessoa querida ou a beleza de um pôr do sol nas nossas montanhas de Serra Negra, anos depois.

A questão, portanto, não é parar de registrar, mas aprender a olhar. Entre o suor das oito horas de Owen e a beleza das águas de Dumont, o que realmente importa é sabermos habitar o nosso tempo — e guardar o que dele vale a pena!

Para que o seu clique seja uma ponte para a emoção, e não uma armadilha para o ego, o Museu ReArte (www.rearte.com.br) promove a Oficina de Fotografia Para Redes Sociais. Ministrada pela talentosa Natália Tonda, o evento é gratuito e acontece no dia 22 de maio (sexta-feira), às 18h30.

As vagas são limitadas, então reserve já! Inscrições pelo link: https://forms.gle/7mFUvGSog1CeMB3f6

Henrique Vieira Filho Administrator

Henrique Vieira Filho é artista visual, agente cultural (SNIIC: AG-207516), produtor cultural no Ponto de Cultura “Sociedade Das Artes” (SNIIC: SP-21915), diretor de arte, produtor audiovisual (ANCINE: 49361), escritor, jornalista (MTB 080467/SP), educador físico (CREF 040237-P/SP) e terapeuta holístico (CRT 21001).

http://lattes.cnpq.br/2146716426132854

https://orcid.org/0000-0002-6719-2559

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