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O Natal em Serra Negra tem um cronograma que desafia a geografia e o calendário ortodoxo. A festa de 1,5 milhão de lâmpadas acende antes de São Paulo ligar o pisca-pisca, e o Papai Noel já está de plantão na Praça John Fitzgerald Kennedy desde o dia 14 de novembro. Mas a minha crônica de hoje é sobre um milagre que transcende a lâmpada LED: o momento em que o balé russo ajuda a pagar o leite dos necessitados!
O protagonista é ele: O Quebra-Nozes. A história do balé é um causo tão cheio de reviravoltas quanto a nossa vida no interior. O conto original, lá de 1816, pelo alemão E. T. A. Hoffmann, era sombrio e meio esquisito… Tinha elementos de terror infantil, era mais para perturbar do que para embalar o sono!
Mas, como tudo na arte, precisou de um filtro francês: o escritor Alexandre Dumas, pai (o mesmo dos mosqueteiros!), pegou a história em 1844 e deu uma bela açucarada, tirando o ranço psicológico e deixando-a perfeita para consumo familiar.
É aí que mais um gênio entra em cena. Em 1892, na Rússia, Tchaikovsky pegou a versão adoçada de Dumas para compor. Confesso: ele achava a história “infantil demais”, mas o czar mandou, e ele obedeceu.
O resultado? Uma estreia meio confusa, com a crítica achando que tinha personagens demais e pouca dança para os protagonistas. A única coisa que bombou de imediato foi a música – a “Valsa das Flores” e a “Dança da Fada Açucarada” (com a tal da celesta, um instrumento que ele roubou a patente de outros compositores na surdina!).
O que revitalizou o balé de Tchaikovsky? O marketing americano. Lá nos anos 50, o coreógrafo George Balanchine pegou o Quebra-Nozes, enfatizou a fantasia natalina, deu um papel de protagonista para a menina Clara, e pá! Virou tradição anual, sustentando financeiramente as companhias de balé do mundo. É o dinheiro do balé clássico ajudando a pagar as contas do ano, de Nova York ao Bolshoi!
E o que isso tem a ver com Serra Negra, a cidade do café e da água radioativa?
Tem tudo a ver! O nosso Natal – Luzes da Serra 2025 não vive só de lâmpadas. Ele vive de arte que transborda!
A cidade abraça o talento local: nossa Cia. de Dança Allegro, da querida Dayana Brunhara Rezende, que já brilham nas minhas crônicas, montou o espetáculo “O Quebra-Nozes” com quase cem bailarinos da nossa terra!
Nos dias 22 e 23 de novembro, no Centro de Convenções, a magia sombria de Hoffmann se encontra com a doçura açucarada de Dumas, tudo ao som de Tchaikovsky, coreografado por nossos artistas.
E a cereja do bolo no evento: a entrada é solidária. Você não paga só com dinheiro, mas com 1 litro de leite ou produtos de higiene, que vão direto para o Fundo Social de Solidariedade de Serra Negra.
É a prova de que a arte não vive na torre de marfim: é o balé russo transformando-se em produção comunitária e em política pública de inclusão aqui no interior de São Paulo. É a “Dança da Fada Açucarada” ajudando a pagar o leite de quem precisa. É a nossa forma de dizer que, em Serra Negra, o balé faz mais do que quebrar nozes; ele quebra a barreira entre a fantasia e a solidariedade.
Henrique Vieira Filho é artista visual, agente cultural (SNIIC: AG-207516), produtor cultural no Ponto de Cultura “Sociedade Das Artes” (SNIIC: SP-21915), diretor de arte, produtor audiovisual (ANCINE: 49361), escritor, jornalista (MTB 080467/SP), educador físico (CREF 040237-P/SP) e terapeuta holístico (CRT 21001).

Henrique Vieira Filho é artista plástico, agente cultural (SNIIC: AG-207516), produtor cultural no Ponto de Cultura “Sociedade Das Artes” (SNIIC: SP-21915), diretor de arte (MTE 0058368/SP), produtor audiovisual (ANCINE: 49361), escritor, jornalista (MTE 080467/SP), educador físico (CREF 040237-P/SP), psicanalista, sociólogo (MTE 0002467/SP), professor de artes visuais, pós-graduado em psicanálise e em perícia técnica sobre artes.
http://lattes.cnpq.br/2146716426132854
https://orcid.org/0000-0002-6719-2559
Contando com cerca de 60 exposições entre individuais e coletivas, em galerias, polos culturais e museus em diversos países, suas obras estão disponíveis tanto em galerias consagradas, como a Saatchi Art, quanto em sua galeria própria, a Sociedade Das Artes, até os mais singelos espaços alternativos.
Atualmente radicado no interior de SP, dedica-se, em especial, ao Slow Art Movement, que prega a apreciação afetiva, “sem pressa” das artes, para todas as camadas da sociedade e ao Projeto Re Arte, em que abre espaço a novos talentos artísticos e à integração das mais diversas formas de artes, por meio de mixagem e releituras.
Editor, autor, pesquisador e parecerista nos periódicos Artivismo (ISSN 2763-6062), Revista TH (ISSN 2763-5570) e Holística (ISSN 2763-7743), conta com centenas de artigos publicados e vinte livros, além de colaborações, entrevistas e consultorias para Jornal da Tarde, O Estado de São Paulo, Diário Popular, Jornal O Serrano, Revista Elle, Revista Claudia, Revista Máxima, Revista Veja, Revista Planeta, Revista Capricho, Revista Contigo, Revista Saúde, Revista Boa Forma, Rádio Globo, Rádio Gazeta, Rádio Eldorado, Rádio Nova, TV Globo (Jornal Nacional, Bom Dia Brasil, Fantástico, etc.), TV Gazeta (Telejornal, Mulheres, Manhã na Paulista), TV Record, SBT (Telejornal, Jô Soares Onze e Meia, etc.), TV Jovem Pan (Telejornal, Opinião Livre, etc.), TV Cultura, TV Bandeirantes, Rede Mulher, TV Rio.